HISTÓRIAS

“SENHOR, EU SOU A NOVA DONA DESTA EMPRESA”

O ônibus freou bruscamente na esquina do Paseo de la Castellana, e Sofía se segurou no corrimão para não cair. Ao descer os degraus, o ar frio de novembro bateu em seu rosto. Madrid despertava apressada: ternos impecáveis, saltos ecoando na calçada, pastas de couro reluzentes, celulares colados aos ouvidos.

Ela, por outro lado, seguia com um jeans já gasto, uma blusa branca que havia passado com cuidado na noite anterior e sapatilhas pretas remendadas mais vezes do que gostava de admitir. Ajustou a bolsa de couro sintético, com as alças rachadas, no ombro e ergueu o olhar.

À sua frente erguia-se a torre de vidro e mármore da Valdés Castillo: vinte e cinco andares que pareciam morder o céu, refletindo as nuvens como se o prédio acreditasse ser mais importante que o próprio horizonte. Sofía engoliu em seco. Aquele era o coração financeiro da cidade — um mundo que ela sempre observara em silêncio, pela janela do ônibus, a caminho de trabalhos invisíveis.

Pegou o celular da bolsa. A tela rachada mostrava 8h31. Logo abaixo, o e-mail que ela havia lido dezenas de vezes, como se pudesse desaparecer a qualquer momento:

“Assunto: Reunião extraordinária de acionistas e diretoria executiva
Local: 23º andar — Sala do Conselho
Horário: 9h00
Presença obrigatória da Sra. Sofía García López.”

O texto estava cheio de termos que ela nunca usara: controle acionário, transferência de cotas, escritura pública. Mas a frase mais pesada era simples:
“Afeta diretamente a propriedade da empresa.”

Ela. Propriedade. Empresa.
Palavras que pareciam pertencer a outra vida.

Respirou fundo e caminhou até as portas giratórias. Ao entrar, um executivo esbarrou em seu ombro sem pedir desculpas, falando ao telefone sobre “números de oito dígitos”. Uma mulher perfumada lançou-lhe um olhar de lado, como se Sofía tivesse entrado ali por engano.

O saguão lembrava o de um hotel de luxo: mármore polido, lustres de cristal, fontes minimalistas e sofás de couro onde homens folheavam revistas de negócios como se o mundo girasse ao redor deles. Ao fundo, um balcão de madeira escura com o logotipo dourado da empresa impunha respeito.

Sofía avançou, sentindo seus passos ecoarem alto demais no silêncio elegante. Atrás do balcão, três recepcionistas de uniforme azul-marinho exibiam maquiagem impecável e sorrisos automáticos — que se desfizeram lentamente quando ela se aproximou.

— Bom dia — disse Sofía, a voz mais baixa do que esperava. — Tenho uma reunião às nove horas, no vigésimo terceiro andar.

A recepcionista a analisou de cima a baixo, detendo-se nos sapatos gastos e na bolsa antiga.

— Reunião? — repetiu, num tom mais zombeteiro do que confuso. — Tem certeza de que este é o lugar certo? Aqui é uma corporação, não… — baixou a voz — …um centro de assistência social. Se veio deixar currículo, o setor de Recursos Humanos fica em outro prédio.

O rosto de Sofía ardeu.

— Não estou procurando emprego — respondeu, apertando o celular com força. — Fui convocada. Tenho o e-mail, se quiser ver.

— Estamos muito ocupados esta manhã — cortou a recepcionista, com um gesto vago. — Não podemos perder tempo com enganos. Não há reuniões para pessoas sem credencial.

Alguns funcionários diminuíram o passo para assistir à cena, com curiosidade divertida. Sofía ouviu risadinhas abafadas — o mesmo tipo de riso que conhecia desde a infância: o riso de quem se sente superior apenas por usar um terno melhor passado.

A vontade de virar as costas e ir embora foi quase irresistível. Mas então ela se lembrou por que estava ali. Lembrou-se do nome no final do e-mail: Torres y Asociados. Lembrou-se da tarde no cartório. Lembrou-se de Enrique.

Ergueu o queixo.

— Por favor — disse com firmeza. — Ligue para o departamento jurídico. Diga que a senhora Sofía García López chegou.

A recepcionista revirou os olhos, mas discou. Bastaram poucos segundos para sua expressão mudar. O rosto empalideceu.

— Um momento… por favor — murmurou.

Minutos depois, um homem de terno cinza saiu apressado dos elevadores.

— Sra. García López? — perguntou, nervoso. — Estávamos à sua espera.

O saguão silenciou.

Ela foi conduzida até o elevador privativo. No 23º andar, uma longa mesa de madeira ocupava o centro da sala. Sentados ao redor, estavam os principais executivos da empresa. À cabeceira, com um sorriso confiante, estava Ricardo Valdés, o milionário fundador.

— Quem é ela? — perguntou ele, rindo baixinho. — Algum erro do jurídico?

O advogado pigarreou.

— Não, senhor Valdés. Esta é Sofía García López… herdeira legal de Enrique García.

O sorriso de Ricardo congelou.

— Isso é impossível — retrucou. — Enrique não tinha família.

— Tinha — respondeu Sofía, finalmente falando. — Ele era meu pai.

O silêncio caiu como um golpe.

O advogado abriu a pasta e empurrou os documentos pela mesa.

— O senhor Enrique adquiriu, ao longo de quinze anos, quarenta e oito por cento das ações desta empresa. Antes de falecer, transferiu legalmente sua participação para a filha.

Ricardo empalideceu.

— Portanto — concluiu o advogado —, a partir de hoje, a maioria acionária pertence à Sra. Sofía García López.

Ela respirou fundo e encarou o homem que minutos antes teria rido dela no saguão.

— Senhor Valdés — disse com calma —, eu sou a nova dona desta empresa.

Ninguém riu.

Dias depois, Sofía voltou ao prédio. Usava roupas simples, como sempre. Mas agora, ao atravessar o saguão, todos se levantavam. A recepcionista que a humilhara mal conseguia sustentar o olhar.

Sofía não buscou vingança. Promoveu mudanças. Criou programas de inclusão. Demitiu quem confundia poder com arrogância.

Porque ela sabia, melhor do que ninguém, o que significava ser invisível.

E nunca mais permitiria que alguém fosse tratado como se não pertencesse a lugar nenhum.

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