A Mulher de Roupas Simples

O ônibus parou com um rangido na esquina da Avenida Paseo de la Reforma, e Sofia se segurou firme na barra para não perder o equilíbrio. Ao descer os degraus, foi atingida pelo ar pesado e barulhento da Cidade do México. A capital despertava em ritmo frenético: ternos impecáveis caminhando rumo aos prédios corporativos, saltos ecoando na calçada, pastas de couro reluzentes e celulares colados aos ouvidos de pessoas sempre apressadas para ganhar mais dinheiro do que conseguiam gastar.
Sofia, por outro lado, caminhava com seus jeans gastos, uma blusa branca cuidadosamente passada na noite anterior e sapatilhas pretas remendadas mais vezes do que gostaria de lembrar. Ajustou melhor a bolsa de couro sintético, com as alças já rachadas, e ergueu os olhos. À sua frente erguia-se a torre de vidro e mármore da Valdés Castillo: vinte e cinco andares que pareciam morder o céu, refletindo as nuvens como se o edifício se julgasse maior que o próprio horizonte.
Ela engoliu em seco. Aquele era o coração financeiro da cidade, um mundo que sempre observara à distância, do transporte público, a caminho de trabalhos invisíveis. Pegou o celular da bolsa. A tela rachada mostrava 8h31. Logo abaixo, o e-mail que ela havia relido dezenas de vezes:
“Assunto: Reunião extraordinária de acionistas e diretoria.
Local: Sala Executiva – 23º andar.
Horário: 9h.
Presença obrigatória da Sra. Sofia García López.”
As palavras pareciam pertencer a outra vida: controle acionário, transferência de participações, ata notarial. Mas uma frase pesava mais que todas: “afeta diretamente a titularidade da empresa”.
Respirou fundo e seguiu para as portas giratórias. Um executivo esbarrou nela sem pedir desculpas, falando ao telefone sobre “números de oito dígitos”. Uma mulher elegantemente perfumada lançou-lhe um olhar de desprezo, como se Sofia fosse uma mancha fora de lugar.
O saguão parecia o lobby de um hotel de luxo: mármore reluzente, lustres de cristal e sofás de couro ocupados por homens poderosos folheando revistas de negócios. Ao fundo, um balcão imponente com o logotipo dourado da empresa. Três recepcionistas, impecáveis, atendiam com sorrisos automáticos.
Quando Sofia se aproximou, o sorriso da recepcionista à sua frente desapareceu.
— Bom dia — disse Sofia, com a voz mais baixa do que gostaria. — Tenho uma reunião às nove no 23º andar.
A mulher a examinou dos pés à cabeça, detendo-se cruelmente nos sapatos gastos e na bolsa velha.
— Reunião? — repetiu, em tom de deboche. — A senhora tem certeza de que é aqui? Este é um prédio corporativo, não um centro de assistência social. Para deixar currículo, o RH fica em outro prédio.
O rosto de Sofia queimou de humilhação.
— Eu não vim procurar emprego — respondeu, segurando o celular. — Fui convocada. Tenho o e-mail.
— Estamos muito ocupadas — cortou a recepcionista, fazendo um gesto para que ela se afastasse. — Não há reuniões para pessoas sem credencial.
Alguns funcionários diminuíram o passo para observar, rindo discretamente. Sofia sentiu o velho impulso de ir embora. Mas lembrou-se de Enrique, o idoso de quem cuidara por anos com carinho genuíno, sem saber que ele era o verdadeiro dono daquele império. Lembrou-se da leitura do testamento, dias após o funeral.
Endireitou os ombros.
Nesse instante, um homem de cerca de cinquenta anos saiu do elevador dando ordens em voz alta. Era o diretor-geral, sobrinho de Enrique, famoso por sua arrogância.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou, olhando para Sofia com desprezo.
— Ela diz que tem reunião com a diretoria — respondeu a recepcionista, segurando o riso.
O homem gargalhou.
— Você? Na minha sala de reuniões? — aproximou-se, invadindo seu espaço. — Vá embora antes que eu chame a polícia.
Sofia não recuou. Abriu a bolsa e retirou um envelope lacrado com o selo de um dos maiores escritórios de advocacia do país.
— O senhor deve ser o Sr. Valdés — disse, com uma calma surpreendente. — Não vou embora. Segundo o testamento do seu tio Enrique e esta ata notarial, esta empresa, este prédio e todas as decisões a partir de hoje passam a ser de minha responsabilidade. Portanto… faça o favor de abrir caminho. Estou atrasada para minha reunião.
O rosto do homem perdeu a cor. O silêncio foi absoluto. As recepcionistas ficaram imóveis. Sofia caminhou em direção ao elevador executivo.
Naquele dia, a torre Valdés Castillo aprendeu uma lição que ninguém esqueceria:
poder não se veste de luxo — ele se constrói com dignidade, coragem e justiça.
E Sofia, que entrou ali com roupas simples, saiu como aquilo que sempre foi por dentro:
uma mulher forte, dona do próprio destino.



