HISTÓRIAS

Durante dois anos, eu levava comida para minha vizinha idosa…

— mas quando finalmente entrei no apartamento dela após sua morte, o que encontrei na cama me fez chorar.

Dona Helena, do 302, tinha 82 anos.
Morava sozinha, em um pequeno apartamento no centro de Curitiba.
Nunca recebia visitas, nunca se ouviam risadas vindas de lá — apenas o som leve de passos arrastados e o rangido discreto da porta se abrindo ao fim da tarde.

A maioria dos vizinhos mal notava sua presença.
Mas eu notava.

Um dia, voltando do mercado, vi Dona Helena tentando subir as escadas com uma sacola pesada.
Ofereci ajuda — e, sem pensar muito, levei para ela uma tigela de sopa que eu havia feito em casa.
Ela segurou o prato com as mãos trêmulas e sorriu:

— Você é muito gentil, minha filha. Faz tempo que ninguém cozinha pra mim.

A partir daquele dia, virou rotina.
Todos os fins de tarde, eu batia à porta dela com alguma coisa — um pão quentinho, um pouco de feijão, às vezes só uma xícara de chá.
Ela sempre agradecia, sempre sorria… mas nunca me deixava entrar.

Dois anos se passaram assim.
Até que, numa manhã fria de junho, encontrei uma ambulância parada em frente ao prédio.
O zelador me olhou com tristeza e disse baixinho:

— Dona Helena se foi. Dormiu e não acordou.

Senti um aperto no peito.
Aquela mulher que eu via todos os dias, que eu sentia como parte da minha rotina, tinha partido — e eu nem sabia o nome completo dela.

Dias depois, o síndico me chamou:

— Você era a única que visitava ela. Quer ajudar a arrumar as coisas?

Entrei no apartamento dela pela primeira vez.
E congelei.

O lugar era escuro, abafado… e coberto de pó.
As cortinas fechadas, o papel de parede descascando, e os móveis pareciam intocados há décadas.
Mas o que mais me marcou foi o quarto.

Sobre a cama, havia uma colcha antiga e, em cima dela, uma pequena pilha de envelopes amarrados com fita vermelha.
Meu nome estava escrito no primeiro: “Para minha vizinha querida.”

Abri com as mãos trêmulas.
Dentro, havia uma carta escrita com caligrafia trêmula:

— Obrigada por me lembrar que eu ainda existia. Nenhuma comida que você trouxe foi só um prato de sopa — foi companhia, foi amor, foi o motivo de eu continuar mais um dia.

No segundo envelope havia algo que mudou minha vida para sempre: uma pequena caixa de madeira, cheia de fotos antigas de Dona Helena sorrindo, com amigos, familiares, e até de pessoas que eu reconheci como meus próprios vizinhos — pessoas que ela amou, mas que a esqueceram.
Havia também um bilhete:

— Guardar memórias é guardar amor. Agora que você sabe da minha história, não deixe ninguém envelhecer sozinho.

Senti minhas lágrimas caírem.
Aquele gesto simples de levar sopa todos os dias tinha significado mais do que eu jamais poderia imaginar.
Dona Helena me ensinou que, às vezes, a gentileza mais pequena salva não só a vida de alguém, mas também a alma.

A partir daquele dia, passei a olhar para os vizinhos de forma diferente. Cada gesto de cuidado, cada sorriso compartilhado, passou a ter um valor imenso. E sempre que levava algo para alguém, eu lembrava de Dona Helena e de como a companhia é muitas vezes mais importante que qualquer prato de comida.

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