NA NOITE DO CASAMENTO DO MEU PAI, UM GRITO ECOOU DO QUARTO

— E O QUE VI QUANDO ABRI A PORTA ME FEZ GELAR ATÉ OS OSSOS…
Meu pai, Roberto Almeida, completou sessenta anos nesta primavera.
Perdemos minha mãe quando eu e minha irmã ainda estávamos na faculdade.
Por mais de duas décadas, ele viveu totalmente sozinho — sem encontros, sem novos relacionamentos, apenas trabalho, missa aos domingos e o pequeno jardim dele em Campinas.
Os parentes insistiam:
“Roberto, você ainda é forte, saudável… ninguém devia envelhecer sozinho.”
Mas ele apenas sorria e dizia:
“Quando minhas meninas estiverem bem encaminhadas, aí eu penso em mim.”
E ele acreditava nisso.
Quando minha irmã finalmente se casou e eu me estabilizei em São Paulo, meu pai pareceu, pela primeira vez, permitir-se olhar para a própria vida.
Então, numa noite de novembro, ele nos ligou com uma voz que não ouvíamos há muito tempo — leve, tímida, quase adolescente:
“Conheci alguém.
O nome dela é Bianca.”
Nós congelamos.
Bianca tinha trinta anos — metade da idade dele.
Contadora, divorciada, sem filhos.
Eles se conheceram numa aula de ioga para terceira idade no centro comunitário.
Desconfiamos no começo.
Mas quando a conhecemos, vimos a forma como ela olhava para ele…
E a forma como ele olhava para ela.
Não era interesse.
Era paz.
O casamento foi simples — no quintal da antiga casa da família, sob a mangueira enorme iluminada com luzes amarelas.
Bianca estava linda num vestido champanhe.
Meu pai parecia nervoso como um garoto apaixonado pela primeira vez.
Depois da festa, minha irmã brincou:
“Pai, pelo amor de Deus, tenta não fazer barulho hoje à noite, hein? As paredes são finas!”
Ele riu, meio sem jeito:
“Vai cuidar da sua vida, menina!”
E entrou no quarto — o mesmo que dividiu com a minha mãe por mais de trinta anos.
Sugerimos que ele redecorasse, mas ele recusou:
“Assim, eu sinto que ela ainda está aqui comigo.”
Por volta da meia-noite, acordei com um barulho.
Talvez vento… talvez algum bicho no telhado.
Mas então:
Um grito.
Agudo.
Assustado.
Eu e minha irmã corremos para o corredor.
Do outro lado da porta, ouvimos Bianca, com a voz trêmula:
“Não! Por favor… não faça isso!”
Empurrei a porta.
E o que vimos nos deixou completamente paralisadas.
Meu pai estava ajoelhado no chão. Chorando. Tremendo.
Bianca o segurava pelos ombros, também chorando.
Ele repetia, como um menino perdido:
“Desculpa… desculpa… eu não consegui… eu não consegui…”
Por um segundo, pensei no pior.
Achei que estavam brigando.
Achei que ela estava em perigo.
Mas então Bianca olhou para nós, com os olhos cheios de compaixão — não de medo.
“Ele teve uma crise de pânico”, ela disse. “A primeira noite aqui… sem a sua mãe… foi mais difícil do que ele imaginava.”
Meu pai ergueu o rosto.
E naquele momento, eu entendi tudo.
Não era sobre Bianca.
Não era sobre o casamento.
Não era sobre dúvida, ciúme ou briga.
Era sobre luto.
Aquele luto que ele carregou sozinho por vinte anos.
Guardado. Trancado. Silenciado.
Entrar naquele quarto como marido de outra mulher foi como trair uma memória.
Como abandonar minha mãe pela segunda vez.
E o peso disso o esmagou.
Nos ajoelhamos ao lado dele.
Ele segurou nossas mãos e chorou como nunca o vimos chorar.
Bianca passou a mão nos cabelos dele e disse:
“Eu não vim substituir ninguém. Só quero caminhar com você daqui pra frente.”
Meu pai encostou a cabeça no ombro dela.
E pela primeira vez, aceitou ser consolado.
Naquela noite, entendi algo profundamente humano:
Às vezes, o amor novo não dói porque é errado.
Dói porque toca as feridas que nunca curaram.
No dia seguinte, Bianca fez café para todos nós.
Meu pai estava mais calmo.
Cansado, mas leve.
Quase grato por ter desmoronado onde alguém pudesse segurá-lo.
Hoje, meses depois, sei que aquela noite não foi um sinal de fraqueza.
Foi o início do recomeço dele.
E eu nunca tinha visto meu pai tão… vivo.



