HISTÓRIAS

EU DEI COMIDA A UM EX-SOLDADO BRASILEIRO E AO SEU CACHORRO.

— UM MÊS DEPOIS, MEU CHEFE ME CHAMOU FURIOSO PARA A SALA DELE, E MINHA VIDA VIROU DE CABEÇA PARA BAIXO.

Tudo começou numa noite de inverno que parecia igual a qualquer outra. Eu acabara de sair do escritório minúsculo onde trabalhava como assistente administrativa de uma seguradora no centro de Curitiba. Estava atrasada para buscar meus filhos, e minha mãe — exausta após um plantão como técnica de enfermagem — estava cuidando deles. A culpa me pressionava de todos os lados.

Corri até o mercado mais próximo, peguei o básico e saí às pressas. Foi então que o vi.

Um homem sentado no chão, encostado na parede fria do estacionamento. Devia ter pouco mais de quarenta anos. Ao lado dele, um pastor-alemão enorme, atento, firme, quase como um guarda-costas fiel de alguém que já não tinha forças para se defender sozinho. O cachorro parecia saudável. O homem… não.

— Moça… — ele disse com a voz baixa, quase envergonhada. — Fui militar. A gente não come desde ontem. Não quero dinheiro… só comida.

Meu corpo travou por um instante. Era noite. Eu estava sozinha. Meus filhos me esperando. Minha mãe cansada. E, como toda mulher sabe, qualquer boa ação à noite pode virar perigo.

Mas havia algo na forma como ele segurava o cachorro… como se aquela fosse a última coisa boa que ainda tinha na vida. Aquilo me desarmou.

Voltei ao mercado. Comprei uma refeição quente, água e um saco de ração.

Quando entreguei, ele me agradeceu como se eu tivesse salvado um mundo inteiro, não apenas duas vidas cansadas.

Voltei para casa, cuidei das crianças, preparei tudo para o dia seguinte. E, sinceramente, esqueci do episódio.

Até que, um mês depois, meu chefe desceu da sala dele como um furacão. Veio direto até mim, no meio do corredor, e jogou um envelope grosso sobre minha mesa. O rosto estava vermelho de raiva.

— É por causa daquele cara da rua — ele rosnou. — Você acha que eu sou idiota? Acha que não percebi o que está armando?

Eu não fazia ideia do que ele estava falando.

Mas bastaram poucos minutos para que a verdade viesse à tona.


O Meio – A Revelação

Meu chefe mandou que eu o seguisse até a sala dele. Assim que fechou a porta, começou a despejar acusações.

— Recebi isso aqui ontem — disse, empurrando o envelope na minha direção. — Uma denúncia anônima. Diz que você está passando informações sigilosas da seguradora para um ex-soldado morador de rua. E que ele está te ajudando a fraudar perícias.

Eu fiquei em choque.

— Que? — consegui responder. — Isso é absurdo! Eu só… eu só comprei comida pra ele um dia! Foi a única vez que o vi!

Mas ele não acreditou.

— Alguém tirou fotos. — Ele abriu o envelope. Lá estavam imagens minhas entregando a comida ao homem e ao cachorro. — Você tem ideia do que isso parece? Do risco que isso representa?

Eu reconheci a caligrafia torta nas anotações anexadas. O conteúdo era cheio de insinuações, mentiras e detalhes que só alguém de dentro da empresa saberia.

Alguém estava tentando me destruir.

E não era o ex-soldado.

Era alguém dali.

Meu chefe suspirou fundo, claramente dividido entre a frustração e o dever.

— Eu não quero te demitir… mas vamos precisar investigar. Até lá, você está suspensa.

Meu mundo desabou.


O Fim – A Virada

No caminho para casa, tremendo, decidi passar novamente pelo estacionamento onde havia encontrado o ex-soldado. Ele estava lá, sentado no mesmo lugar, com o cachorro ao lado.

Quando me aproximei, ele me reconheceu imediatamente.

— Moça… aconteceu alguma coisa?

E eu desabei. Contei tudo. A injustiça, a suspensão, as fotos, a acusação absurda.

Ele escutou em silêncio. Quando terminei, respirou fundo.

— Eu… preciso te contar uma coisa — disse enfim. — Eu não estava ali aquele dia por acaso. Fui policial do Exército por quase vinte anos. Conheço gente perigosa. E também reconheço quando alguém está sendo seguido.

Meu coração disparou.

— Seguido? Eu?

Ele acenou.

— Aquele dia… enquanto você voltava ao mercado, um homem ficou fotografando você. Segui-o discretamente por alguns quarteirões. Ele entrou no prédio da sua empresa.

Meu sangue gelou.

Ele abriu a mochila velha que carregava e tirou de lá um caderno amassado.

— Eu anotei a descrição dele. E o horário. Pensei em falar com você depois, mas… achei que assustaria.

Quando descreveu o homem, eu senti o estômago afundar.

Era Paulo, o analista do setor ao lado. Ele sempre parecia irritado com meu trabalho, como se eu fosse uma ameaça — mesmo sem ser. Eu nunca imaginei que ele pudesse chegar tão longe.

Foi o suficiente.

Com a ajuda do ex-soldado, levei a descrição à direção da empresa. Eles chamaram o setor jurídico, revisaram câmeras, horários e acessos. Em menos de 24 horas, tudo estava claro:

o autor da denúncia falsa era mesmo Paulo.

Ele foi demitido imediatamente.

E quanto a mim?

Meu chefe me chamou novamente à sala dele — dessa vez sem fúria nenhuma.

— Você ficou no olho de um furacão… mas agiu com dignidade. Queremos que volte. E, depois disso tudo, você merece mais.

Ele me promoveu.

Sai da sala tremendo, mas sorrindo.

No final da tarde, levei duas marmitas para o estacionamento: uma para o ex-soldado… e outra para o cachorro.

— Obrigada — eu disse.

Ele sorriu.

— Não. Eu que agradeço. Às vezes, basta um prato de comida para mudar o rumo de duas vidas.

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